Projeto Ta’ynhetá fortalece juventude indígena e a justiça climática no território Potiguara
- redecurica
- 11 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.
Sementes, formação e monitoramento comunitário impulsionam restauração na Aldeia Três Rios

Na Aldeia Três Rios, no litoral norte da Paraíba, sementes deixaram de ser apenas parte da paisagem para se tornarem estratégia de futuro. Entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, a Rede Curica deu passos decisivos na consolidação do Projeto Ta’ynhetá Potiguara, iniciativa que vem fortalecendo a gestão territorial indígena, a proteção da Mata Atlântica e o protagonismo da juventude Potiguara frente à crise climática.
A primeira etapa do projeto foi viabilizada com o apoio fundamental do Fundo Brasil de Direitos Humanos, por meio do edital RAÍZES – Fundo de Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, que reconhece e fortalece soluções climáticas construídas a partir dos próprios territórios. Esse apoio permitiu que o Ta’ynhetá se estruturasse como um processo comunitário contínuo, integrando formação, produção socioambiental, monitoramento da biodiversidade e comunicação indígena.
Juventude em movimento, território fortalecido
Ao longo dessa etapa inicial, o projeto mobilizou diretamente cerca de 70 participantes, em sua maioria jovens indígenas, além de mulheres, lideranças e anciãos. Oficinas, mutirões, assembleias comunitárias, intercâmbios entre aldeias e ações de campo ampliaram o envolvimento coletivo e fortaleceram a organização comunitária. Somando as atividades abertas e o alcance das redes sociais, mais de 31 mil pessoas foram alcançadas indiretamente, ampliando a visibilidade das ações e a devolutiva pública do trabalho realizado.
O Ta’ynhetá percorreu diferentes aldeias e áreas do território Potiguara, conectando saberes tradicionais, memória dos mais velhos e ferramentas técnicas apropriadas pela juventude. Esse movimento reforçou vínculos interaldeias e reafirmou o território como um espaço vivo, de circulação, cuidado e planejamento coletivo.
Coleta de sementes e cuidado com a Mata Atlântica

Um dos eixos centrais do projeto é a coleta ética de sementes nativas, realizada a partir do conhecimento tradicional sobre os ciclos da floresta. Na primeira etapa, foram realizadas mais de 20 ações de coleta, com a sistematização de mais de 34.500 sementes, pertencentes a mais de 30 espécies nativas da Mata Atlântica, incluindo áreas de tabuleiro e restinga.
Essas sementes são a base de um trabalho maior: o fortalecimento do ciclo sementes–mudas–restauração, que conecta conservação ambiental, geração de trabalho e recuperação de áreas degradadas no território indígena.
Viveiro, oficinas e cultura como parte da solução

O projeto também investiu na formação prática e na infraestrutura comunitária. Oficinas sobre coleta e beneficiamento de sementes, agroecologia, sistemas agroflorestais, ferramentas digitais de monitoramento e práticas culturais Potiguara reuniram dezenas de participantes na Aldeia Três Rios.
Um dos momentos mais simbólicos foi a inauguração do Viveiro Ybyraroka, espaço comunitário de produção de mudas, acompanhada de Toré e atividades culturais. O viveiro se tornou ponto de encontro, aprendizado e trabalho coletivo, fortalecendo a relação entre cuidado com a terra, identidade indígena e autonomia comunitária.
Monitoramento ambiental e novos olhares sobre o território

A primeira etapa do Ta’ynhetá também consolidou uma rotina comunitária de monitoramento da biodiversidade, com registros de fauna e flora realizados pelos próprios moradores, utilizando observação de campo, fotografia e ferramentas digitais. Esse processo contribuiu para a formação de mais de 30 jovens indígenas como Agentes Indígenas Ambientais, fortalecendo a vigilância territorial e a produção de dados próprios sobre o território.
Esses registros ajudam a compreender não apenas o que está retornando às áreas em recuperação, mas também o que foi perdido ao longo de décadas de degradação ambiental, monocultura e ausência de políticas públicas.
Resultados que ultrapassam números

Além das ações comunitárias, o fortalecimento do Ta’ynhetá possibilitou a produção de mais de 11 mil mudas nativas, utilizadas na recuperação de áreas degradadas no Território Indígena Potiguara, em articulação com instituições parceiras e com acompanhamento técnico especializado. As mudas produzidas a partir de sementes coletadas no próprio território demonstram, na prática, a potência do trabalho indígena na restauração ambiental e na justiça climática.
Apoios e parcerias que constroem caminhos
A Rede Curica reconhece que os avanços dessa etapa só foram possíveis graças ao apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, que fortaleceu não apenas a execução das atividades, mas também a organização institucional, a transparência e a comunicação comunitária. O projeto contou ainda com parcerias importantes, como ICMBio, FUNAI, coletivos indígenas e espaços acadêmicos que contribuíram com apoio técnico, logístico e audiovisual.
O que vem pela frente

Na próxima etapa, o Projeto Ta’ynhetá avançará na implantação do Banco de Sementes Potiguara, na estruturação da sede comunitária Kurika Rekoaba, na implantação de Sistemas Agroflorestais e na elaboração do Catálogo Ta’ynhetá, reunindo as espécies mapeadas ao longo do monitoramento comunitário.
Mais do que um projeto, o Ta’ynhetá se consolida como um processo vivo de fortalecimento territorial. Em um contexto de crise climática e pressões históricas sobre o território Potiguara, a iniciativa reafirma que a justiça climática começa no território, com protagonismo indígena, sementes cuidadas e futuros cultivados coletivamente.
Realização: Associação Indígena Socioambiental Curica – Rede Curica
Apoio: Fundo Brasil de Direitos Humanos – Edital RAÍZES | Fundo de Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais Fundação Nacional dos Povos Indígenas Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade











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